Regras para ser um chef

Esses dias entrei num blog onde uma leitora citou que "a regra principal para ser um chef é...". Peraí!!! Existe regra para ser chef?!? Não sabia...
Em Gastronomia tem muito disso. E já começa no curso.
O uniforme, as facas, a pasta onde você guarda as facas (até entendo, são materias didáticos...). Mas passam-se os meses e você percebe outras coisas.

As facas mudam - já não são mais aquelas, mas aquelas outras que custam a partir de 350 dólares que o chef fulano de tal usa (nessa hora esquecem-se das normas da Anvisa sobre as facas com cabo branco).
Depois, os sapatos de segurança (aqueles de peão de fábrica, de couro, solado anti-derrapante) feitos para evitar contusões com possíveis quedas de objetos pontiagudos, dão lugar aos sapatinhos de borracha (estilo tamanco hoalndês).
O que era regra passa a ser excessão e outras regras começam a tomar conta do ambiente acadêmico que forma o tal chef...

Você deve parar de falar sobre o mundo que gira lá fora (deve ser desses seres bitolados que não sabem nada sobre política, economia, cotidiano) e trocar todos os cadernos do jornal pelo "Paladar", do Estado de S.Paulo. Deve trocar seus clássicos da literatura mundial pelos livros do Jamie Oliver (a coleção completa, viu?), deve parar de falar sobre essas conversas de "memória gustativa" e "receitas de família" e começar a se inteirar sobre as "novas tecnologias da Gastronomia".

Esqueça aquele lugar agradável onde você pode reunir as amigas (no seu Clube da Luluzinha) para celebrar a vida enquanto os namorados preparam o jantar. A onda é ver e ser visto naqueles restaurantes onde a fila de espera chega a 3 horas para quem não fez a reserva com 20 dias de antecedência.
Coxinha? Bolinho de queijo? Minha filha, que paladar bizarro é esse seu? Depois que você faz Gastronomia você o lance é voul-al-vent, no mínimo! (Ou blinis com creme azedo e caviar). Se for para mencionar esse tipo de "petisco-povão", é recomendável usar o termo "comidinha de botequim". Para parecer que croquete é "iguaria popular".

Já disse isso a vocês? Na minha aula de Cozinha Regional Brasileira vi muita gente arregalar os olhos para a goma da tapioca. "Tapioca???". Pareciam que estavam diante de poeira extraída da Lua pelo pessoal da NASA.
Em Gastronomia, ou você sabe quem ganhou o prêmio de Melhor Chef pela revista Prazeres da Mesa, ou quais são os 50 melhores restaurantes do mundo pelo Guia Michelin, ou você é de outro planeta.

Querem saber? Aprendi muito quando depois que fiz Gastronomia.
Aprendi por conta própria que essa mania de enfeitar os partos com "salsa-areia" é uma das coisas mais blazées que existe. Que não existe nada melhor do que comida feita com amor (e geralmente as receitas de família são a maior prova disso), que a identidade de um povo é expressa pelo que ele come e que pouco me importa se o Eleven Madison Park ganhou 4 estrelas do The New York Times.

Para quem gosta de ovo:

Amuse Bouche - O garçom coloca um molho (quente) verde em volta de um ovo, com muito cuidado para não cobri-lo. Entrada do Eleven Madison Park, 4 estrelas pelo The New York Times

Ou você vai ter coragem de dizer que prefere o omelete caseiro feito pela senhora sua mãe?

4 comentários:

Paulo disse...

A-D-O-R-E-I!

Santinha disse...

Minha amiga não sou chefe de cozinha, mas adoro cozinhar.
Lendo seu post lembrei do meu dilema quando montei minha pequena pousadinha na serra.
Fiquei muito tempo atormentada com uma imensa vontade de atender a alguns viajantes descolados e me pus a pensar na minha cozinha, em como seria afinal.
Pensei em aprender novas técnicas, conhecer novos produtos, saber sobre novos equipamentos, experimentar novas receitas...

Deparei-me com um mercado altamente especializado que acompanha com apetite a volúpia dos cozinheiros e grandes “chefs” altamente paramentados que possuem vasta biblioteca gastronômica e sabem soletrar os nomes de todos os grandes chefs do mundo e, pelo menos uma vez por semana, vestem o avental personalizado é claro, e cozinham para amigos pratos inacreditáveis.
A verdadeira festa de Babete.

Termos como, “foodie”, “Nan-pla”, “mix &match”, me fizeram pensar em como era mágica a cozinha da minha avó, tudo muito simples.

Cozinhar é cada vez mais uma arte e pelo que pude concluir voltou a ser um local de prazer onde mulheres e homens praticam seus dons. Onde se pode beber um bom vinho e comer à luz de velas, reunir amigos e conversar enquanto se prepara um prato, ou fazer, solitário, uma comida num fim de noite, ouvindo música.
No final deu tudo certo.
adorei seu blog

Josy Marmello disse...

Obrigada Paulo!

Pois é Santinha.
A gente pensa que no universo da Gastronomia vai aprender muita coisa. Aprende mesmo, é verdade. Aprende técnicas, aprende truques, aprende a fazer certinho o que às vezes a gente faz errado.
Mas aprende acima de tudo, a olhar nossas raízes com outros olhos. A dar mais valor para o feijãozinho de casa, feito pela mãe da gente...
Obrigada pela visita, viu?

Marcel Dias Pitelli disse...

Pois é, né? Praticidade acaba sendo a regra da vez...Até podemos fazer essas receitas em alguns momento das nossas vidas, mas as que marcam mesmo, as que faremos mais vezes são os ovos fritos e os picadinhos, as comidas de mãe.

Vc é 10, Josi!

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